Ibirahill não é uma pousada.
É a casa que não encontramos em lugar nenhum — então construímos.
Conhecíamos bem a síndrome de domingo. Aquela sombra que chega no fim da tarde, quando a semana seguinte começa a pesar antes mesmo de começar. Vivemos anos assim em Londres, entre marketing, publicidade e aeroportos — uma vida que, de fora, parecia certa.
Viajávamos muito, ficávamos nos melhores lugares que o mundo tinha a oferecer. E mesmo assim, todo domingo, a mesma pergunta voltava: e se a gente vivesse de outro jeito? Foi essa pergunta que, mais tarde, virou Ibirahill.


Compramos um terreno em Ibiraquera numa dessas viagens e o deixamos lá, como quem guarda um plano para a aposentadoria. Mas a síndrome de domingo não espera a aposentadoria. Ela voltava toda semana, cobrando uma resposta.
Por essa época, um livro — A Nova Terra, de Eckhart Tolle — colocou em palavras o que já sentíamos: boa parte do peso vinha dos papéis que a gente representa, das expectativas que nunca foram nossas. Decidimos largar o que não era nosso.
Transformamos o escritório de casa em outra coisa. Numa parede, colocamos tudo o que queríamos da vida — e só o que queríamos. O que não coube na parede, não coube no plano. Depois desenhamos a linha do tempo até lá, e começamos a riscar.
Quando chegou a hora, vendemos quase tudo. O que sobrou coube em algumas malas e numa decisão.
Chegamos ao morro para viver devagar e logo percebemos uma coisa: o lugar que procurávamos pelo mundo não existia. Então construímos.
Cada casa foi desenhada sobre a topografia do morro, não contra ela. Não erguemos prédios com vista — erguemos refúgios que colocam você dentro da paisagem, não na frente dela.
Nada de excesso. Não a maior piscina nem a TV mais nova, mas o suficiente: o bastante para você sentir o silêncio, a mata, a luz mudando ao longo do dia. Tudo já vem resolvido — a cozinha abastecida, os caminhos indicados — para que nada fique entre você e o lugar. Assim, você chega a um lugar onde ainda não esteve. Fora, e dentro de você.


Poderíamos ter guardado tudo isso para nós. Mas o que este lugar fez com a gente foi grande demais para não dividir. Dormir sem barulho de trânsito, acordar e escutar só a mata — isso mudou a forma como vivemos o resto do ano.
Cada hóspede que passa por aqui leva, se deixar, uma semente: a de que a vida que você quer não precisa esperar a aposentadoria. Aqui ninguém precisa ser ninguém. Só estar.
